Tratamento da obesidade – a doença é crônica e o tratamento é contínuo – Saúde Não Se Pesa

Obesidade e fatores emocionais: uma via de mão dupla

Apesar da taxa de pessoas com obesidade estar aumentando no mundo inteiro, as pessoas com esta doença ainda enfrentam muitas ideias e atitudes negativas da sociedade de uma forma geral.1 O estigma da obesidade tem consequências fisiológicas e psicológicas que podem contribuir para o ganho de peso, além de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e diminuição da autoestima. Todo esse cenário pode afastar ainda mais as pessoas de uma alimentação saudável, atividades físicas e cuidados médicos.2 Portanto, o apoio psicológico é essencial no tratamento da obesidade e dos fatores emocionais associados a ela.3

 

Estigma da obesidade e fatores emocionais

O estigma da obesidade se baseia em um equívoco muito comum, de que a perda de peso está totalmente sob controle da pessoa, que é preciso apenas ter força de vontade para comer menos e fazer mais exercícios. Mas essa narrativa ignora os desafios que as pessoas com essa doença têm que enfrentar e simplifica as causas da obesidade. O comportamento individual tem sim um papel na perda e no controle do peso. Mas não se pode desconsiderar a grande influência de fatores genéticos, ambientais e psicológicos.2

Além disso, criticar ou constranger alguém por causa de sua forma física não funciona como incentivo para essa pessoa adotar hábitos saudáveis. Muito pelo contrário, existem pesquisas mostrando que essa postura pode gerar sofrimento e estresse e criar barreiras para medidas que promovem a saúde. Mesmo assim, a discriminação contra pessoas com obesidade está presente em toda a parte: local de trabalho, atendimento médico, locais públicas, na mídia e nas relações interpessoais.2

E o preconceito começa cedo. Crianças com excesso de peso podem sofrer provocações, ameaças verbais e agressões físicas. Também podem ser excluídas das atividades sociais ou ignorados pelos colegas de classe. Inclusive, existem estudos indicando que crianças em idade escolar com obesidade têm uma chance 63% maior de sofrer bullying, seja por parte de colegas, amigos ou familiares.2

Porém, a estigmatização pode trazer prejuízos graves não só para crianças, mas para adultos com obesidade também, tais como:2

 

  • Vergonha ou insatisfação sobre o próprio corpo.
  • Baixa autoestima e autoconfiança.
  • Depressão, ansiedade e outros transtornos mentais.
  • Solidão
  • Pior desempenho acadêmico
  • Receio de fazer exercícios ou comer em público, o que prejudica a saúde
  •  

    A correlação entre obesidade e problemas de saúde mental

    O estigma do peso compromete o bem-estar emocional e é um dos fatores que ajudam a explicar por que problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, são mais frequentes em pessoas com índice de massa corporal (IMC) mais alto. E a relação entre obesidade e transtornos mentais é uma via de mão dupla, ou seja, uma condição pode causar ou agravar a outra.

    A depressão é o diagnóstico mais estudado quando se trata da relação entre problemas de saúde mental e obesidade.4 Entenda os possíveis mecanismos por trás disso:

     

    obesidade em crianças e adolescentes

    É bom frisar, entretanto, que as duas condições nem sempre andam juntas. Além disso, a depressão em pessoas com obesidade não deve ser atribuída apenas ao peso.4

    Obesidade e transtornos alimentares: emoções afetam o comportamento alimentar

    A ênfase da sociedade e da mídia no corpo magro e com músculos trabalhados como sinônimo de beleza física cria a ideia de que pessoas com obesidade são menos atraentes ou desejáveis. Com isso, a insatisfação com o próprio corpo é generalizada. Ao internalizar esses padrões estéticos, quem vive com a obesidade está ainda mais suscetível a não gostar da imagem que vê diante do espelho.6

     

    O que pode ter consequências sérias, pois ter sentimentos negativos em relação à própria forma física é um fator de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares. O mais comum entre pessoas com obesidade é a compulsão alimentar periódica. Esse transtorno envolve episódios recorrentes em que a pessoa consome uma grande quantidade de comida rapidamente, mesmo sem fome. Após um episódio compulsivo, a consciência da perda de controle abre espaço para a sensação de culpa ou tristeza.1

     

    Há todo um campo de pesquisas sobre como as emoções influenciam o comportamento alimentar. É sabido que é muito frequente nas pessoas com obesidade o chamado “comer emocional”, que é o hábito de usar a comida – especialmente as que são ricas em calorias, doces ou gordurosas – como uma fonte imediata de conforto emocional para lidar com emoções difíceis, como angústia, vergonha, raiva e estresse.6,7

     

    Associar comida como alívio para os problemas pode ficar “programado” no cérebro. É quando, por exemplo, você automaticamente pega uma guloseima sempre que está irritado ou estressado, em vez de lidar com a situação que está causando esses sentimentos.7

     

    Quaisquer que sejam as emoções que levam alguém a comer em excesso, o resultado geralmente é o mesmo: o efeito de gratificação dura pouco, a pessoa se sente ainda pior e essa frustração pode motivá-la a comer em excesso novamente. Assim, o comer emocional frequentemente se torna um ciclo vicioso que leva ao ganho de peso e, consequentemente, traz outros riscos à saúde. 6

     

    A importância do apoio psicológico no tratamento da obesidade 

    O fator psicológico é de grande importância tanto para a causa como consequência da obesidade e, por isso, deve ter um foco indispensável no tratamento.6 O acompanhamento de um profissional de saúde mental pode ajudar você em vários aspectos, por exemplo:

    • Estabelecer metas e fazer as mudanças de estilo de vida necessárias para que você atinja seus objetivos de perda de peso;
    • Reconhecer os gatilhos que o levam a comer em excesso;
    • Aprender a gerenciar o estresse e a ansiedade de maneira saudável;
    • Identificar quais fatores podem ter contribuído para ter obesidade;
    • Identificar quais são seus obstáculos para o controle do peso e como contorná-los;
    • Lidar com as consequências emocionais da doença;
    • Auxiliar nos conflitos relacionados à imagem corporal;
    • Modificar pensamentos negativos e autodestrutivos;
    • Aliviar o sofrimento psicológico, trazendo melhorias para a qualidade de vida.3,8

    Referências: 1.Fabricatore AN, Wadden TA. Psychological Functioning of Obese Individuals. American Diabetes Association. https://spectrum.diabetesjournals.org/content/16/4/245. Acesso em: 28/06/2021.2.World Health Organization – WHO. Weight bias and obesity stigma: considerations for the WHO European Region. https://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0017/351026/WeightBias.pdf. Acesso em: 28/06/2021.3.Mayo Clinic. Obesity. https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/obesity/diagnosis-treatment/drc-20375749. Acesso em: 28/06/2021.4.The British Psychological Society. Psychological perspectives on obesity: Addressing policy, practice and research priorities https://www.bps.org.uk/sites/bps.org.uk/files/Policy/Policy%20-%20Files/Psychological%20Perspectives%20on%20Obesity%20-%20Addressing%20Policy%2C%20Practice%2C%20and%20Research%20Priorities.pdf. Acesso em: 28/06/2021.5. Simon GE, Korff, MV, Saunders K. Association between obesity and psychiatric disorder in the US adult population. US National Library of Medicine.https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1913935/. Acesso em: 28/06/2021.6.Cruz LM, Nunes CP. Fator emocional na obesidade e transtornos de imagem e alimentares. Revista de Medicina de Família e Saúde Mental. https://www.unifeso.edu.br/revista/index.php/medicinafamiliasaudemental/article/viewFile/1613/641. Acesso em: 28/06/2021.7.Governo de São Paulo. Você sabe o que é alimentação emocional? Ela pode oferecer riscos à saúde. https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/voce-sabe-o-que-e-alimentacao-emocional-ela-pode-oferecer-riscos-saude/. Acesso em: 28/06/2021.8.Karasu SR. Psychotherapy-Lite: Obesity and the Role of the Mental Health Practitioner. The American Journal of Psychotherapy. https://psychotherapy.psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.psychotherapy.2013.67.1.3. Acesso em: 28/06/2021.

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