Por que existe a mudança de comportamento alimentar em épocas frias?

Por que comemos mais no inverno e optamos por alimentos com maior valor calórico?

As baixas temperaturas nas estações mais frias do ano podem alterar a fome e o perfil dos alimentos consumidos, levando a uma maior ingestão de alimentos calóricos. Pesquisas confirmam que, de fato, há uma sazonalidade no consumo dos alimentos e das calorias. Nas estações mais frias do ano, observamos maior preferência por alimentos com maior densidade calórica e, também, o aumento na ingestão de alimentos. Para os nossos antepassados, essas adaptações, certamente, foram uma questão de sobrevivência.

Aumento do gasto energético e consumo de alimentos calóricos

Uma das explicações para essa mudança na fome e na ingestão alimentar que ocorre no inverno são as adaptações do nosso corpo ao frio.

Esse aumento do gasto energético em baixas temperaturas é parcialmente explicado pela ativação do tecido adiposo marrom, popularmente chamado de BAT (do inglês brown adipose tissue). Quando estamos em um ambiente termoneutro, nosso corpo não gasta energia para a manutenção da temperatura. Por outro lado, quando a temperatura cai para abaixo desses valores de termoneutralidade, ocorre ativação do tecido adiposo marrom para a produção de calor, e o gasto energético do nosso corpo aumenta.

Estudos com animais mostram que, quando são expostos ao frio, eles tendem a alimentar-se excessivamente e, quando expostos ao calor, tendem a comer menos. Essa variação é causada pela interação do sistema termorregulador com o sistema regulador da ingestão de alimentos localizados no hipotálamo.

Contudo, em humanos, estas observações são um pouco diferentes. Durante a exposição ao frio, alguns estudos mostraram que o aumento da ingestão de calorias foi maior (+140 kcal, variando de 33 a 269 kcal) do que o aumento do gasto de calorias (+34 kcal, variando de 33 a 120 kcal). Isso significa que:

Baixa atividade física em estações frias e consumo de alimentos calóricos

Outro aspecto importante é a prática de atividade física. No inverno, o sol se põe mais cedo, deixando os dias mais curtos e as noites mais compridas. Com isso, há alterações hormonais. Uma delas é o aumento na produção do hormônio do sono, a melatonina, que deixa as pessoas mais sonolentas e menos fisicamente ativas. As pessoas tendem a ficar mais reclusas, dentro de suas casas, por exemplo.

A redução da atividade física corporal contribui para esfriar o corpo, afinal, o exercício produz calor a partir das contrações musculares. Em situações de baixa atividade física e consequentemente baixa produção de calor, há estímulo para a busca de alimentos mais calóricos, que serão usados como combustível para aquecer o corpo.

Menor produção de dopamina e serotonina e o consumo de alimentos calóricos

Outra alteração hormonal que ocorre em período do frio é a redução na produção de dopamina e serotonina, que são neurotransmissores relacionados à felicidade. Com menor luz solar por causa dos dias mais curtos, a produção desses neurotransmissores pode diminuir de forma mais acentuada em algumas pessoas. Pode surgir a sensação de mais tristeza, e com isso vem a busca por compensação em outras formas de prazer, como a alimentação.

Ao longo da evolução humana, nosso corpo foi treinado para buscar alimentos com mais gordura, mais sal, e mais açúcar, pensando na sobrevivência. Isso está dentro do nosso DNA e explica a preferência por determinados tipos de alimentos nos dias mais frios, que incluem aqueles mais gordurosos, ricos em açúcares, e que apresentam mais calorias em geral.

Para as pessoas que observam aumento da sua fome durante as épocas mais frias do ano, há sugestões que podem ser úteis para enfrentar este período, diminuindo o risco de ganho de peso:

Tipo de alimentação - aproveitar o período para incluir sopas e caldos quentes na alimentação diária, pois a vontade de consumir frutas, saladas e alimentos crus pode diminuir. Eles podem ser grandes aliados de uma alimentação equilibrada, pois é possível preparar estas preparações culinárias com legumes e verduras variados, além de leguminosas como os feijões, lentilha, grão de bico e ervilha; e também incluindo cereais, como o arroz nas canjas, o fubá e o macarrão nas sopas, por exemplo. Ainda, fica muito saboroso adicionar uma fonte proteica que inclui carnes magras, aves ou peixes.

  • Sensação de saciedade - como a proteína é um nutriente que contribui bastante para a saciedade, a sensação de estômago cheio tende a durar mais tempo;
  • Proteção e aquecimento do corpo - chás variados e saborosos também são uma boa pedida para os dias frios, pois hidratam, podem conter compostos bioativos que protegem nosso organismo e ajudam a aquecer o corpo.

Atividade física - manter a prática de atividade física mesmo durante o inverno. Como explicado anteriormente, a atividade física irá produzir calor, que irá ajudar a aquecer o seu organismo. Dessa forma, a vontade de ingerir alimentos energéticos poderá ser menor.

Vestimenta - agasalhar-se de forma adequada, se abrigar longe do frio e ou usar fontes externas de calor.

Vale ressaltar que a resposta ao frio é variável, depende de características individuais e ambientais. Assim, nem todas as pessoas irão apresentar as mesmas sensações de fome e desenvolver aumento no gasto energético no inverno. Para todos, vale a recomendação de aproveitar a estação mais fria do ano com bons hábitos de vida, observando o corpo e, assim, perceber o que mais pode funcionar para cada pessoa.

BR22OB00101 - Ago./2022

Referência   1. Stelmach-Mardas M, Kleiser C, Uzhova I, Peñalvo JL et al. Seasonality of food groups and total energy intake: a systematic review and meta-analysis. Eur J Clin Nutr. Junho de 2016. Disponível em: https://www.nature.com/articles/ejcn2015224. Acesso em: 13/07/2022. 2. Langeveld M, Tan CY, Soeters MR et al. Mild cold effects on hunger, food intake, satiety and skin temperature in humans. Endocr Connect. Março de 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5002965/. Acesso em: 13/07/2022. 3. Cara Ocobock. Am J Phys Anthropol. Human energy expenditure, allocation, and interactions in natural temperate, hot, and cold environments. Agosto de 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27561011/. Acesso em: 13/07/2022. 4. Millet J, Siracusa J, Tardo-Dino PE et al. Effects of Acute Heat and Cold Exposures at Rest or during Exercise on Subsequent Energy Intake: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients. Outubro de 2021. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8538265/. Acesso em: 13/07/2022. 5. Gupta A, Sharma PK, Garg VK et al. Role of serotonin in seasonal affective disorder. Eur Rev Med Pharmacol Sci. Janeiro de 2013. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23329523/. Acesso em: 13/07/2022.

Encontre o médico mais próximo de você.

Procure um médico

Se você tem dúvidas sobre seu peso ou IMC, busque uma orientação médica. Presencialmente ou de forma virtual, uma conversa com um médico pode ser o primeiro passo para começar a buscar mais qualidade de vida.